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Redes sociais

cadenciaex:

dizer-te é inclinar-me                                                                                              sobre o                                                                                                          silêncio

José Tolentino Mendonça em “A Noite Abre Meus Olhos”, 2014. 

cadenciaex:

“Uma mulher como você e um homem como eu não se esbarram muitas vezes na face da terra.”

 Joseph Conrad: Dentro das Marés. 

textoscrueisdemais:

não subestimem a dor das pessoas ou o quão no fundo do buraco elas estão se sentindo. não avaliem a maneira como uma pessoa se sente a partir de como ela sorri ou da quantidade de vezes que sai de casa por dia. não espere alguém chegar ao seu extremo para acreditar que ela precisa de ajuda e, mais, para oferecer ajuda. seja a sua melhor versão com quem você ama em todos os instantes, porque em algum momento pode deixar de ser só mais uma manifestação de carinho e passar a ser a salvação dela.

migalhas-literarias:

[…] o luar que batia nas águas, o céu sereno e eterno. Eterno, sim, eterno, leitora minha, que é a mais desconsoladora lição que nos poderia dar Deus, no meio das nossas agitações, lutas, ânsias, paixões insaciáveis, dores de um dia, gozos de um instante, que se acabam e passam conosco, debaixo daquela azul eternidade, impassível e muda como a morte.

Machado de Assis, A mão e a Luva, 1874.

via

asnaus:

uma melancolia que não consigo disfarçar 

A tristeza de ser sozinho

Estava com os pés plantados ao chão, e destes brotavam margaridas que mais tarde seriam usadas para polinizar os mais variados sentimentos adstritos à pele. As margaridas que não tinham pétalas brancas, se fechavam durante a noite e abriam-se quando o sol fazia menção a cor que deveriam apresentar no miolo; as pétalas eram pequeninas, rodeando o botão central que não possuía cor visível; as mãos também não possuíam cor, o sangue estaria petrificado.

Pensava que o sangue era amaldiçoado, que a ausência de pigmentação elevada curaria todas as doenças, e se nada assim fosse levado ao estômago, estaria puro. Limpo. Seria doente de tristeza. A tristeza que era uma jovem senhora de 27 anos e como consequente não completaria os 28 anos e nem somente teve 26.

E por ter doença, acreditava que somente os alimentos de cor neutra deveriam ser ingeridos, os alimentos de cor forte seriam venenosos, o corpo rejeitaria; e pensava ainda que se o estômago se acostumasse com tais alimentos, o óbito iria acontecer de forma breve.

Não era do falecer que tinha medo, mas da solidão demasiada que poderia ocorrer de seu corpo. Corpo é só corpo, os vermes hão de comer e só sobrarão ossos, contavam os mais velhos. Mas este seria tão puro que aquelas palavras não passariam de ilusões profanas, o corpo e somente o corpo era capaz de vislumbrar a natureza, gostava da cor que as árvores tinha, era uma cor bonita de se apreciar.

Contudo, a morte levaria tudo embora. Seu corpo ficaria por debaixo da terra onde só moram as raízes, as raízes já foram pessoas um dia, somos raízes depois da morte, nascemos frutos e morreremos corpo para nos tornarmos raízes.

Sonhos e devaneios eram considerados loucura, acordava assustado sempre que sonhava, pensava que teria vivido aquilo em algum momento da vida ou que viveria, sonhava demasiado, os sonhos mostravam a obscuridade colada a alma, mesmo não gostando da pigmentação que a dor tinha não conseguia se livrar desta.

Já era tarde da noite e talvez a tristeza só dormisse com o raiar do sol e a noite despertasse com o fechar das margaridas; pois era naquele momento em que se sentia mais sozinho, sozinho em sua companhia, era triste por conter tristeza, era triste e não sabia o porquê, não sabia quem eram seus progenitores. Família era quem acolhe, a natureza o acolhia, seria a natureza sua família, os animais e tudo o que o tinha por perto. Até a tristeza era família.

Pensava que cada um deveria ser par, ou de outrem, ou de si próprio; e se transformando em dois, não estaria sozinho nunca, vomitaria a alma para ser cúmplice de si mesmo, uma companhia nas noites de estio quando a lua dormisse de mansinho, escondendo-se por trás das nuvens de algodão que as crianças pensavam serem doces iguais à serenidade contada pelas pessoas e que nunca conheceu.

As margaridas que brotavam de seus pés talvez significassem que o corpo estava a falecer, desesperou-se ao pensar nisto, quando percebeu já começara a arrancar a pele de seus pés e desesperou-se ainda mais ao ver sangue. Ao perceber que o sangue não estava petrificado, que existia pigmentação elevada em seu corpo, colocou a culpa da tristeza na existência.

Se tem tristeza pois se vive, e queria se livrar da tristeza. Os pés doíam demasiado, ardiam em vida, o sangue não parava de jorrar, puxou do bolso um canivete e arrancou as unhas dos pés que estavam ficando roxas. Maldita tristeza, maldita. A tristeza era uma maldita que nunca o deixava, mas o fazia sofrer, era o seu par, aquela que você não sabe por que guarda dentro de si, uma desconhecida que te conhece muito bem.

Queria expulsar a tristeza do peito, não suportava mais ser sozinho, não era sozinho em sua companhia, era sozinho com a tristeza. E suas mãos tinham cheiro de ferrugem, o vermelho escarlate cada vez mais o desesperava, seus olhos arregalados choravam rios de dor.

As mãos sem cor, foram até a altura de seu peitoral, começou a fazer força para os lados, como quem parte um frango ao meio. Queria desesperadamente dar liberdade ao que estava preso.

Sentiu-se sujo.

Usou o canivete para abrir-se, a dor era incalculável, mas não pensava nesta, somente naquela alojada dentro de si a comer seus órgãos. Nesta progressão, também apresentaria alguma doença neurodegenerativa por perda progressiva e gradual de neurônios, por prejuízos na sua função, levando a esta disfunção do sistema nervoso. Seria a tristeza a causadora? Pensou que sim e que se abrindo, expulsaria a tristeza.

O tão sagrado corpo faleceu, o sangue enfim estava petrificado, a tristeza também, todos estavam mortos; a natureza, a pigmentação elevada e sua alma. Teria se tornado uma raiz, ou várias raízes, sem tristeza, sem doença, sem agonia, sem pigmentação.

- Gleice Kele

vaoseluz:

você me olha como se meu caos fosse bonito visto de longe

obotequim:

A poesia abre os olhos, cala a boca e estremece a alma.